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sexta-feira, dezembro 30, 2011

Morte ao Wado!


Por Januário Leite

            Eu, como músico arapiraquense e por conseqüência alagoano me vejo, quando falamos em raiz ou matéria prima, no marasmo criativo que ecoa no mar azul das letras de areia e sereia. No estado das ironias; O estado que tem o maior índice de analfabetismo tem o nome de um cidadão nativo intitulando um dicionário (Aurélio Buarque). Temos, na minha umedecida opinião, o maior escritor brasileiro (me perdoa Paulo Coelho), que é o Grande Graciliano Ramos. Posso babar o ovo mole do Sir Hermeto Pascoal ou divagar sobre impacto do conterrâneo (musicalmente e presencialmente distante... istante... tante...ante...) Djavan na “Mpbmundial”. São ícones a nível mundial. Temos muitos outros que poderiam compor essa lista.

Entretanto eu tenho 23 anos e posso falar com mais autoridade do que eu vi/vivi. Comecei a escutar (melhor) música considerada [pra mim] boa em meados de 2000. Misturado aos clássicos do rock eu sempre fui curioso com o que acontecia/acontece no presente. Em 2003 [ou 2004], por acaso, zapeando os canais parei na Tv Cultura e lembro que estava passando um programa chamado Alto Falante (que está “vivo” até hoje) e lá a notícia de um Alagoano e sua banda que estavam fazendo alguns shows pelo Sul:

“- Massa véy, os bróder alagoano”.

Poderia ter pensado qualquer outra coisa mais inteligente, mas foi exatamente isso que eu pensei. Acompanhei a matéria e foi ali que conheci Wado e o Realismo Fantástico. Até o momento, na minha adolescência, a única banda alagoana que eu (realmente) curtia era a clássica Mopho.

E fui acompanhando. Gelei muito com o 
"Manifesto da Arte Periférica" e o “Cinema Auditivo”, que eram os discos que ele tinha feito na época. Depois desses, os outros (Farsa do Samba Nublado, Terceiro Mundo Festivo, Atlântico Negro) vieram reafirmando o potencial criativo do nosso compositor dazalagoas.

Não irei me prolongar falando do teor artístico dessa discografia fundamental dos anos 00, mas caso queiram saber (e olhem que tem muita coisa escrita sobre o bróder) é só ir no Google e procurar “Discos do Wado”.

Você quis dizer:
 
Discos do WANDO   

É ai onde esbarramos. Mesmo com uma já boa estrada, Wado (ainda) não chegou ao grande público. O grande público é quando o Google não confundir mais seu nome. Não, não estou dizendo que ele teria de lançar seu Samba 808 no, por exemplo, “Samba (808) Maceió, com participação de Belo”. Não seria uma boa idéia mesmo. O Grande público é o simples reconhecimento maior ; Dinheiro$. Há quem diga que se ele fizesse questão de se dizer mais “Catarinense” do que Alagoano talvez tivesse mais chances de se deixar ser ouvido. Não é culpa dele. Nosso estado tem muita coisa boa, só que sempre fazem questão de lembrar as desgraças e das celebridades do lado negro da força de Alagoas pós 90, como a figura onipresente do carioca Fernando Collor. Ou dos índices da violência que só crescem e crescem. / não para, não para, não para não.

Nossa Alagoas chora sangue.

Voltando ao ponto crucial da valorização coletiva da auto-estima estadual;

Temos que organizar um plano. Pensar em uma das melhores formas de destacar a fama positiva de um lugar é criando um mártir. Sem querer ou querendo. Melhor ainda se for um mártir da arte.

Estou ouvindo esse lançamento que, mais uma vez [e agora bem mais], está sendo aclamado pela crítica especializada. Só que escutando o Samba 808 [ou Disco Inexistente, uma vez que só foi lançando no formato virtual] eu sinto que ele ganhará uma relevância maior, não só pelas participações (entre elas Zeca Baleiro, Chico Cézar, Marcelo Magalhães e Mallu Camelo), mas pelo teor envolvente e pela eterna sacada que o Samba é o Rock do Brasileiro. Em questão de “experimentação musical” Wado já experimentou mais. Já “misturou” mais. Porém melhor o é quando acontece genuinamente como a primeira impressão de Samba 808:
                                                                                                                     (baixe: http://wado.com.br/ ) 

- Porra. Já ouvi isso bixo...
- Parece com...
- É pô, parece com...
- Parece com Wado.

Ele se reafirma. Deve ser um encontro bonito, lá dentro, entre todos os anseios de um artista.

Estamos com a pessoa certa, na hora certa. A pessoa que, caso morresse, diriam os jornais que estava no auge da sua criatividade artística, da composição moderna e como destaque entre a nova MPB, onde grande parte dela está nas mãos da “Galera Rivotril” (como diria, bem dito, a tuiteira @MadaMaciel). Diriam que perdemos um ser com grande potencial criativo.

MORTE AO WADO. Essa é a hora. A hora de olharem pro nosso estado e na figura santificada de um artista em ascensão, morto. Desse jeito todos os holofotes do País, quiçá do Mundo, ovacionaria o Arteiro Alagoano que fez um dos melhores Cds do século 21, pré 2012. 

Os próprios alagoanos desinformados, ou que apenas “esperam” a informação, tomariam conhecimento por que o Jornal Nacional noticiaria. Talvez até o Fantástico fizesse uma matéria especial, focado na morte e na tragédia que por ventura acontecesse.

Com o tempo a figura do fantasma wado´s e muitos tributos realizados depois [recheados de artistas que as vezes nem gostavam, mas com os holofotes ligados, porque não participar de homenagens póstumas e tirar uma casquinha?]. Ficaria na mente de muita gente e despertaria o interesse no que vem da terra, antes que se vá. Alguma paixão coletiva nasceria e veríamos a Arte (já bem florescida) de Alagoas representando e dando pautas positivas pra imprensa que só deixa os olhos abertos para as barbaridades. Cansamos de ver exemplos na música mundial, inclusive nos nossos vizinhos mangueados. 

A morte tem seu quê de arte desde Shakespeare. Do que adiantou viver Van Gogh. Seus quadros, hoje, valem milhões e o coitado das zureia cortada vivia entre a loucura e a insanidade. Sei que o nosso querido 
Schlickmann está bem longe desse desespero e miséria, mas será que seria preciso disso pra, não a unanimidade, pelos menos a maioria se tocasse que estamos com um dos maiores artistas do Brasil na atualidade?

Janu - Como você queria morrer?

Wado -
Rapaz... queria morrer não muito velho, antes de ficar caduco mas depois dos 60. Ou enfiar um carro num poste ou dormindo, algo que não envolvesse muito sangue ou dor, porque já fiz muitas cirurgias e adoraria não ter de ir pra faca novamente.
:)

J - Se tudo é por um triz, você lembra do dia exato que, por acaso, ficou a um triz desistir de "tudo"?

W - 
Se esse tudo é a música, posso te dizer que ano que vem eu pretendo priorizar outras coisas pra ganhar um dinheiro, esse ano foquei na música e realizei muita coisa boa mas está na hora de sair do sufoco, não tenho muito talento pra coitadinho, quero viver as coisas boas.
J - O que é melhor de se fazer com a ponta dos dedos? 
W - Se pode fazer muita coisa com a ponta dos dedos. ( 
http://www.youtube.com/watch?v=WMvqbpNocQE )

J - Caminhar nessa ponte entre o underground e o pop, sempre foi PoPprosital?


W -
O pop até agora está mais no formato das canções do que no alcance, mas sou um amante da música pop e trabalho dentro desse formato, eu crio dentro dessas regras.

J - (pergunta infame) 
O que os Surdos da Escola de Samba acharam quando ouviram essa música?

W -  
Quando fiz essa canção me referi ao instrumento, mas gosto que tenham sua própria interpretação.
J - Quanto ao público que torce e reza pra sua música não virar “pop” só pelo gostinho de se sentirem “raros” por curtirem você?

W - 
Tomara que estejam errados.
 

J - Você acha que se morresse agora, seria uma ótima jogada de marketing para sua carreira e por ventura pra toda cena da música Alagoana / Brasileira / Mundial?

W - 
Essa opção não seria boa pra mim. Pode ser boa pro contexto, mas ainda quero fazer coisas vivo que não se relacionam com música. Tem coisas que ainda não vivi, lugares que quero conhecer. Essas coisas. Não valeria a pena morrer agora não.
 
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E logicamente não queremos isso.

Eu poderia ter falado aqui dezenas de nomes alagoanos que estão vivos em constante estado de fotossíntese artística, criando coisas lindas que todo mundo tem/terá que ouvir. Do Rap Antropofágico ao Adventure Pop. Eu considero Cena Musical quando um lugar tem um monte de Artista bom querendo sempre fazer algo melhor que o outro. Quem ganha sempre é o público.

Esses dias eu vi que o nosso querido país é Sexta Economia do Mundo (chupa Londres). Junto com o crescimento econômico vem a cultura que tem um peso relevante em cada nação. Eu vejo a música (e todo o tipo de Arte) criativa acontecendo em todos os estados do Brasil, junto com ela esse emaranhado de ritmos, sons e poesia que só o País Tropical tem.

 Viva a música Alagoana. Viva a música Brasileira.

7 comentários:

  1. adorei a materia e o título é para abrir os olhos e dá valor a música/letra/poesia de qualidade e mesmo nosso pequeno estado com tantos problemas tem muito o que msotrar.

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  2. Januário, belo texto. Ótima ideia!

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  3. Maravilhoso, Janu!!! Curto muito o som do Wado e tenho esse último álbum dele já há um tempo. Acho que assim que foi divulgado, já fui baixando. É bom saber que todos estamos juntos nessa. Amo meu Estado apesar das crises e de tanta desigualdade. Nossas belezas naturais são exuberantes e em termos de produção cultural, tem muita gente boa no anonimato. Mesmo que, assim como Wado, queiramos produzir em outras áreas e ganhar nossa grana, aconselho a todos que tenham vontade e algum talento, por menor que possa parecer, a jogar isso pra os cadernos, estúdios, o que quer que seja e precise pra que seja concretizado. Às vezes algo parece ser pequeno mas depende dos olhos de quem vê. As menores coisas sempre me causaram os maiores impactos! Viva a arte, cultura brasileira, NORDESTINA e alagoana, em especial!!!

    Um abraço, Fofa!!!

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  4. Bôa Janu, a garapa é essa! é preciso abrir os olhos pra essa realidade ou vamos fazer arte e esperar a morte nos consagrar.

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  5. Pois é, para músicas de moletas, ouvidos tortos... Tá faltando cultura musical nessa moçada que assume a mediocridade como algo relevante. Será que só precisam de tempo? Talvez...

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